quarta-feira, 6 de junho de 2012

Tempestade na alma, sonhos por terra


Estava um dia lindo! A vista da praia era deslumbrante. O sol brilhava majestosamente e a água do mar, espelho ingrato da luz que vem de cima, transparecia beleza e serenidade, mas não toda a que tinha.

E o céu? O céu estava como nunca o tinha visto antes. Completamente cheio, atolado de gaivotas! Pareciam treinadas, tal era a graciosidade com que voavam de um lado para o outro. Ia cada uma no seu caminho e, surpreendentemente, nunca chocavam. Mas afinal de contas, pensei eu, porque haveriam de ter problemas se o céu estava limpo e via-se bem o caminho que cada uma tinha pela frente? É a voar sobre o mar que as gaivotas se sentem realmente bem, por isso até a mais preguiçosa de entre elas aproveitava para sobrevoar as águas.

Mas mesmo assim!, vejam bem, se fôssemos a perscrutar a linha do horizonte com um olhar atento, distinguiam-se uma ou duas cabeças junto da linha da água. Eram as gaivotas-rabo-colado-ao-mar que, por causa do trabalho que lhes dava bater as asas, preferiam ficar de baixo a ver as outras lá no alto.

E acima de todas as outras, onde o ar era rarefeito e o risco de cair era bem maior, 
voava uma gaivota-especial.

Até que  começou a chuviscar! 

                






- Ouve lá, – diz uma gaivota-de-pouca-molha para a outra – não achas que era melhor irmos para terra?
- És bem capaz de ter razão, sabes? Para além de não ficarmos com esta comichão que é  própria dos chuviscos, também não corremos o risco de cair direitinhas no mar. Hey, pessoal! Nós vamos andando que isto é capaz de ficar feio - e lá foram.

Rapidamente se lhes juntaram as gaivotas-vão-com-as-outras que, coitadinhas, andavam constantemente preocupadas com a maneira de voar das outras e não com a sua.

A chuva ficou mais forte…

 
As gaivotas-receosas, que já andavam há uns tempos a chatear as cautelosas-e-facilmente-persuasíveis para rumarem em direcção a terra, tiveram a desculpa perfeita para as convencerem. Só se ouvia comentários como “Ai, que seria da minha vida se apanhasse mais um segundo desta chuva terrível!” ou  “Deixa lá isso que estavas a fazer, por mais importante que seja, porque chuva é chuva.”, enquanto os dois grupos se retiravam do mar.
Contra todos os conselhos das cautelosas, a gaivota-especial não descia das alturas onde voava.
Os trovões rebentaram, a tempestade levava tudo à frente!

As gaivotas-guerreiras, que nunca tinham visto tempestade assim, começaram a ficar com genuíno medo. Então tentaram conferenciar umas com as outras, de forma a apurarem qual seria o melhor comportamento a tomar. Mas a chuva era tanta e o ruído tão ensurdecedor, que nem estas corajosas conseguiram falar entre si. Desorientadas, mas seguras que cada uma saberia encontrar o seu caminho para terra, optaram por resguardar-se em solo firme.

Por último, a gaivota-que-não-deixava-ninguém-para-trás decidiu que era hora de levar toda a gente para terra. Voou o mais alto que pôde, mas não encontrou aí a sua companheira. A trepidação era demasiado forte, pelo que seguiu para a praia, deixando aquela pequena gaivota-especial entregue ao seu destino.


 

Com o nascer de um novo dia, toda a atribulação cessou. Os destroços eram visíveis e reinava um ambiente de tristeza entre todas as gaivotas, mas aparte disso tudo decorria como normal. Voavam todas como dantes, e nenhuma delas mudou grande coisa no curso das suas vidas. Apenas não sabiam o que era feito daquela estranha gaivota, a quem ninguém tinha dado alguma vez grande atenção.

Subitamente, para espanto e horror de todas, começou nova tempestade! E desta vez com toda a força e imponência que a anterior tinha tido só na sua fase final! Não havia tempo para fugir, falar ou aconchegar aqueles de quem mais gostavam. Mas houve tempo para ver uma luz. E foi essa luz que todas as gaivotas, até as de rabo-colado-ao-mar (que pelos vistos até voavam bastante bem), seguiram. Como era possível que onde estava essa luz, estivesse uma tenda que as salvaria a todas? Sem compreender como aquela construção fora ali parar, repararam numa mensagem escrita cuidadosamente numa pedra:

“Queridos amigos,

Para que muitos possam voar quando o sol brilha, há quem tenha de resistir quando a chuva bate forte. Tive de voar alto, bem alto, porque só de lá de cima se consegue ver as necessidades de todos vocês que estavam mais em baixo. Não julguem que estou triste pelo que me aconteceu, o sítio onde estou agora jamais seria capaz de alcançar, por mais alto que voasse. Por isso peço-vos: voem alto e nunca deixem de o fazer. Não se esqueçam que quem voa alto não tem sempre de cair, há um caminho que é sempre em direcção ao céu e eu penso ter alcançado a sua meta.”

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Este post é dedicado a todos aqueles que são capazes de amar os outros, sonhar pelos outros, dar a vida pelos outros.

E já agora, aqui fica o vídeo que me inspirou para a realização desta pequena história (não me perguntem porquê). O protagonista chama-se Flag, é o pastor alemão cá de casa - vá-se lá saber porque é que se chama assim...


9 comentários:

  1. Brutal, é uma grande verdade, adorei o post e o design do mesmo. Formidavel a forma como criaste a historia!

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    1. Muito obrigado jonnhy! Comentários desses vindos de futuros "professional web designers" são sempre bem-vindos.

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  2. Adorei o post. Comovi-me pela forma bela e sincera como escreveste. Foi o que gostei mais mas eu sou suspeita para falar de ti:) :) bj mãe

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    1. Ainda bem que gostaste, por acaso esqueci-me de falar da gaivota-mãe :)

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  3. gostei muito miguel, o texto está muito bonito e tem uma mensagem muito forte. beijinhos

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  4. Muito inspirado(r), Miguel, sempre um prazer ler o que escreve. Um grande beijinho, Filipa Guedes :-)

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    1. Ainda bem que tem acompanhado e gosta tia, os seus comentários são bastante apreciados!

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  5. Quando olhei para o post pareceu.me demasiado grande para eu o ler! Não tinha tempo, talvez tivesse a voar bem junto ao mar... Mas a verdade é que o li, e à medida que o fui lendo, recriei o meu universo de pessoas, que encaixava perfeitamente nessas tuas personificações.
    Excelente caracterização e adjetivação.

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    1. Muito obrigado, fico contente pela paciência que demonstraste ter para o post :)

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