quarta-feira, 27 de junho de 2012

Vives num mundo à parte!


Estava eu numa aula bastante soft de geografia, quando uns amigos meus decidiram mostrar-me um vídeo em que dois homens (que mais pareciam dois animais em fúria) espancavam brutalmente o segurança de uma discoteca. O nosso professor aproximou-se, ainda viu um bocadinho do vídeo, e saiu-se com uma desta género: “Oh Miguel, porque é que vês estas coisas? Andas sempre a ver destas violências… Para quê? Coisas más há muitas pelo mundo fora, mas para que serve ver assim a desgraça dos outros?”.

3/4 anos passaram e eu continuo sem perceber por que carga d’água é que o meu professor de geografia achava que eu era fã de cenas de violência! Mas quanto à segunda parte daquilo que ele disse, não podia estar mais de acordo. Que utilidade é que tem ver uma cena de pancada online, quando a seguir vamos ficar mais impressionados e com vontade de esganar os responsáveis, mas sem a mínima hipótese de ajudar quem quer que seja? Estarei a fechar os olhos à realidade quando digo que não quero ver o vídeo? Eu acho sinceramente que não. Não defendo que devamos viver num mundo fechado a quatro chaves, em que só entra informação previamente filtrada por nós. Mas não preciso de ver os 21 pontapés que o tipo A deu no B, nem a forma como lhe desfigurou a cara, para ter consciência de que essa e muitas outras coisas más acontecem pelo mundo fora. Certamente há quem tenha de o fazer, como os polícias responsáveis por resolver o caso, ou os médicos forenses, mas não o espectador ávido por uma cena que o choque a ele e aos que o rodeiem.

A questão é que há alguns temas que são considerados como musts no que toca a conhecer a realidade, e por isso dão muito que falar nas notícias e põem muita tinta a correr nos jornais e livros. O mundo vai dizer-te que sobre estes temas tu tens de saber até ao mais ínfimo pormenor como é que as coisas se processam, e se te passa pela cabeça trocar de canal quando se fala deles, então é porque vives num mundo à parte! A violência e a desgraça alheia parecem ser dois deles, mas há mais.
  

No outro dia estive a discutir com uns amigos meus por que razão é que devíamos ler ou não livros como “O fim da inocência”. Este livro em específico fala de uma realidade de sexo, drogas e álcool que rapazes e raparigas com menos de 18 anos já viveram. Não o li, mas pelo que percebi o autor não só dá a conhecer o tipo de atividades em que estes jovens se envolviam, como descreve todos os detalhes mais chocantes das mesmas. As questões que ponho são:

1.  Qual a intenção do livro? Se é puramente a de chocar audiências sob o nome de “dar a conhecer uma nova realidade”, então mais vale pô-lo de parte. Conhecer uma nova realidade, por pior que ela seja, não implica que tenha de ficar chocado com todos os detalhes da mesma. Para além disso, nunca se sabe até que ponto as arestas da tal realidade foram polidas de forma a fazer vender mais papel.

2.   O que temos a ganhar com a leitura deste ou outro livro parecido? Vai ajudar-nos ou a alguém que conheçamos, acordar-nos definitivamente para uma realidade para que estávamos adormecidos? Se sim, é capaz que valha a pena a sua leitura. Mas se estamos a ler o livro como se fosse um romance - coisa que não, é porque retrata a realidade - à espera de chegar às partes em que a rapariga do livro mais se desgraçou no consumo de drogas e nos jogos sexuais, então não acho que esteja certo fazê-lo. Isso é fazer da desgraça dos outros um instrumento para o que quer que seja que ela suscite em nós.

E tu, o que pensas sobre isto? Qual a tua sensibilidade relativamente a este assunto? Comenta!

7 comentários:

  1. desconfio que o professor de que falas é o João Ruas :)

    relativamente à questão em si, acho que de facto não há necessidade de vermos / lermos sobre desgraças alheias se já sabemos que elas existem. no que diz respeito a mim, também prefiro não ver um vídeo de violência "gratuita" ou não ler um livro sobre as perversidades da mente humana. e não creio que vivo num mundo isolado por isso!

    beijinho Miguel :) *

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    1. Ainda bem que há quem pense como eu relativamente a este tema. Sempre reconfortante Ana :)

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  2. do ponto de vista do liberador, tudo depende da atitude do leitor e daquilo que o motiva a ver/ler esse tipo de coisas. ir numa típica atitude 'voyeurista' é claramente diferente do que adoptar uma postura de análise crítica aos problemas. mas de facto, uma coisa é indiscutível, é que as pessoas gostam de desgraças. nãoé por acaso que o correio da manhã é o jornal mais vendido de Portugal, e também não o é, que qualquer acidente de viação tenha o poder de fazer parar os carros para ver o que se passou. um abraço, meu caro

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    1. Do ponto de vista do escritor deste blogue, acho que tens razão em parte do que disseste. Não concordo com o que dizes sobre depender TUDO da atitude do leitor. Intenção e ação são duas coisas bem distintas. Uma pessoa que vá ver um vídeo de violência pura, gratuita e chocante, por muito bem intencionado que seja, na realidade vai estar a assistir ao vídeo tal como ele é. E daí pode não retirar absolutamente nada.

      Por isso, acho que a questão não está somente do lado do leitor ou espectador, mas também junto daquilo que está a ver ou ler.

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  3. Concordo com o que disseste no sentido em que não é pelo o facto de não visionarmos esses vídeos mais chocantes que estamos a "filtrá-los" e a rejeitar uma realidade presente no mundo que nos rodeia.

    Acho sinceramente que é muito importante termos conhecimento das atrocidades que se cometem à nossa volta, até para, na medida do possível, combate-las. Mas eu sinto que hoje em dia as pessoas quase que se divertem ao ver vídeos de pancadaria ou outras tristezas. Vivemos num mundo em que é normal as famílias estarem a jantar enquanto passam no tele-jornal as noticias mais terríveis, sem que no entanto nos tirem o apetite. Na minha opinião não devemos dar audiências a vídeos que são colocados no youtube, ou nas redes sociais que transmitam actos socialmente condenáveis; porque de certa forma estamos a incentivar os seus autores a realizarem mais.

    Se virmos conteúdo desse tipo na Internet, ou onde quer que seja, não devemos encará-lo como mais um video para mostrar aos amigos, mas sim como uma atrocidade que deve ser reportada às autoridades competentes.

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    1. Tiago, concordo inteiramente com o que dizes sobre ser muito importante sabermos das atrocidades que se passam à nossa volta. S. Josemaria Escrivá dizia a seguinte frase: "Fé, alegria e optimismo - mas não a estupidez de fechar os olhos à realidade." Espantoso!

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  4. Desculpem o atraso... Eu já li o livro, e partilho da mesma opinião. Acrescentaria só mais uma coisa.. tem de ser um esforço contínuo e persistente para que nos consigamos afastar dessas "tais pequenas e irrelevantes nuances". Um esforço interior, porque esta realidade, e este facilitismo, têm de ser contrariados, quase que travando uma batalha indivual contra a satisfação de uma curisiodade vã e sem nexo.

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